Em junho de 2013, no auge das manifestações, Fernando Haddad rejeitou publicamente a proposta da tarifa zero no transporte coletivo. Classificou-a como uma ideia “populista”, deslocando o debate do campo do direito à cidade para o da suposta inviabilidade técnica. A posição contrastava com a centralidade que o tema havia assumido nas ruas. Haddad só mudou de opinião após a intervenção de Luiz Inácio Lula da Silva. A demora em reconhecer que as tarifas precisavam baixar contribuiu para que os protestos se espalhassem por todo o país e para que a popularidade do governo despencasse.
Naquele mesmo ano, a então presidenta Dilma Rousseff reuniu-se com representantes do Movimento Passe Livre (MPL). Durante o encontro, afirmou que “alguém teria que pagar a conta” da tarifa zero. A resposta foi direta: informamos que a presidenta estava despreparada para o debate. O financiamento do transporte público já existe, é regressivo e recai majoritariamente sobre os usuários mais pobres. O debate nunca foi se há uma conta, mas quem a paga e como ela é distribuída socialmente.
Treze anos depois, essa conta segue sem ser feita pela União. Diante da inação do governo federal, prefeitos de diferentes correntes políticas avançaram e implantaram a gratuidade em seus municípios. A tarifa zero já é realidade em 136 cidades brasileiras. Até mesmo a capital paulista, governada por Ricardo Nunes (MDB), adotou a gratuidade aos domingos e feriados. No plano federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a mencionar o tema, mas sem apresentar dados ou diretrizes concretas. Embora a tarefa tenha sido delegada por Lula, Fernando Haddad optou por conduzir o tema de forma estritamente tecnocrática, esvaziando o debate público e afastando os atores sociais historicamente envolvidos na construção da tarifa zero. Ao submeter a pauta às amarras fiscais da Fazenda, Haddad trava seu avanço e repete, em essência, a mesma postura equivocada de 2013.
Nem todos no PT, contudo, mantiveram a mesma posição ao longo do tempo. Jilmar Tatto, que era secretário de Transportes em 2013, revisou sua postura e hoje defende abertamente a tarifa zero. Foi ele quem convenceu o presidente Lula de que a pauta tem forte respaldo popular. Para que avance, será necessário que Lula, pela segunda vez, tenha uma interlocução firme com Haddad.
As Jornadas de Junho de 2013 evidenciaram que o transporte público não é um tema setorial, mas um eixo estruturante da desigualdade social nas cidades brasileiras. A tarifa zero é tecnicamente viável e pode ser financiada por diferentes mecanismos, já testados em experiências nacionais e internacionais. Seus efeitos são amplamente conhecidos: aumento da circulação no comércio local, ampliação do acesso à saúde e ao lazer, além da redução da poluição atmosférica e sonora. Não se trata, portanto, de uma pauta restrita à militância. Até mesmo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), entidade patronal do setor, manifesta apoio à tarifa zero.
Ainda assim, o governo federal segue priorizando outras agendas. O vice-presidente Geraldo Alckmin lidera políticas de estímulo à indústria automobilística, de renovação de frotas de ônibus e privatização de metrôs. É pouco. Vale lembrar que, em 2013, Alckmin, então governador de São Paulo, foi quem autorizou o aumento da tarifa do metrô em meio às grandes manifestações. À época, tratou o transporte público como problema de ordem policial, não como direito social.
Os resultados desse modelo são evidentes. O número de atropelamentos cresce nas capitais, e cidades como São Paulo e Rio de Janeiro registram aumento contínuo das mortes de pedestres. Trata-se de um planejamento urbano que privilegia o automóvel, aprofunda a violência viária e reforça a segregação espacial.
A tarifa zero não pode ser uma promessa vaga, lançada ao vento. É uma política pública concreta, já testada, compatível com a justiça social e com a democratização do espaço urbano. Adiar indefinidamente o debate sobre seu financiamento é uma escolha política.Treze anos depois, a pergunta permanece sem resposta: quem deve pagar pelo transporte coletivo? Sem participação social na formulação do projeto, o transporte continuará reproduzindo desigualdades. A dúvida central é política: Lula pretende apenas falar sobre tarifa zero ou, finalmente, tratá-la como política pública?